Imagino que o prezado leitor se dispôs a ler este texto imaginando uma possível referenciação a tantas adjetivações frugais sobre mulheres que vemos aí pelas mídias: mulher-moranguinho, mulher-melancia, etc. Parabéns! É exatamente sobre um pouco disso que pretendo escrever agora.
O termo, mulher-pirulito, não é meu. Está enfaticamente imposto na Veja desta semana, cuja capa alerta “Emagrecer pode ser uma delícia”, sobrepondo uma matéria especial de 42 páginas sobre emagrecimento, boa alimentação, saúde, e tudo mais próximo relacionado a tal. O curioso do termo é justamente a ideia que suscita; mulher-pirulito: cabeça grande e corpo fininho, o estereótipo, também metaforicamente, da mulher ideal.
Muitas correntes teóricas, principalmente as que se ocupam da linguagem, nos explicam que a identidade de uma pessoa é composta exclusivamente pelo funcionamento da linguagem. Algumas, focadas sobre o estudo do discurso, falam em processos de identificações, mutáveis, ajustáveis a cada situação da vida. O importante, neste âmbito, é destacar que, se as identidades, ainda que maleáveis, ocorrem pela linguagem, faz-se necessário empenhar muito cuidado sobre o que lemos, ouvimos, vemos, falamos, escrevemos, enfim, estar bem armado na guerra da comunicação. Levantemos um escudo:
A referida matéria que enaltece a magreza chama a atenção por levar o título: Especial Mulher e em todas as páginas apresentar a palavra mulher impressa no canto superior esquerdo. Dessa forma, busca direcionar todo o seu dizer especificamente ao público feminino.
Contando com a da capa, há nada menos que 20 imagens de corpos entre, por exemplo, Adriane Galisteu, Victoria Beckham e Deborah Secco, expondo um contorno físico, objeto ideal. A única imagem de uma mulher fora desse estereótipo (gorda) é precedida de chamadas como “quase 100 quilos” e “Exagero faz mal à saúde”, em, no mínimo, fonte arial tamanho 85. Sem falar na sórdida estratégia de intercalar propagandas de produtos de beleza e alimentação saudável a cada página sim, página não.
Em uma leitura mais atenciosa, observamos o forte apelo para uma padronização dos tipos de corpos. Neste caso, femininos. Porém, não é o que mostram determinadas estatísticas dando conta de que aumenta o número de obesos no Brasil e no mundo. Basta ir às praias, sair às ruas, e veremos comumente que a maiorias das pessoas, tanto homens quanto mulheres, não têm o corpo idealizado: malhado, estilo mulher-pirulito.
Um exemplo latente é Susan Boyle. Fora dos atuais padrões de beleza, está mundialmente conhecida por cantar muito bem uma música de difícil execução. Quase posso garantir que esse sucesso passageiro de Boyle se deve mais ao seu estereótipo do que à sua bela interpretação. Se fosse uma loira alta de olhos azuis, provavelmente não seria notícia para as agências.
Os termos bélicos não são por acaso. A guerra, a batalha comunicacional em que estamos envoltos e atuantes é muito mais séria do que imaginamos. A todo o momento somos/estamos cingidos por ideias, discussões e atividades que, por não empenharmos uma observação mais detida, acabam nos fazendo, nos moldando, determinando nossas condutas e hábitos.
É evidente que nunca haverá consenso de opiniões. Há gordos e gordas felizes, com uma vida tranquila para si, enquanto a oposição os recriminam, e vice-versa. Ainda bem que é assim, e seja sempre! O grande tédio do mundo virá no dia em que todas as pessoas pensarem de mesmo modo, apresentar as mesmas atitudes, o mesmo corpo.
Seremos mais inteligentes quando aprendermos a conviver com as diferenças. Viva a mulher-pirulito! Viva a mulher-abóbora! Viva o homem-varal! Viva o homem-potato!
Texto publicado no jornal O Paraná (www.oparana.com.br) em 29 de maio de 2009
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Eder José














