quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O dito e o não-dito de Maria Kehl

Não é preciso ser inteligente para dar-se conta de que isto a que chamam liberdade de imprensa é um grande teatro. Aliás, como toda nossa condição de existência é, mise en scène, um teatro que mais parece um circo divido entre palhaços que gozam de pão e risos e palhaços que se empenham em perpetuar o pão e o riso aos demais palhaços em troca destes ficaram sempre muito satisfeitos somente com isso.

Refiro-me ao episódio que ocorreu com a psicanalista Maria Rita Kehl que, contratada pelo jornal Estadão para escrever sobre psicanálise, atreveu-se a escrever sobre política e, por assinar um artigo de opinião em que destacava aspectos positivos do programa Bolsa-família, acabou demitida. Seu artigo chamado “Dois pesos...”, a meu ver, nada mais oferece que uma reflexão crítica sobre política, questionando afirmações de que o povão das classes C, D, E (seja lá quantas forem) somente votam no PT porque este partido lhes dá dinheiro para fazer nada, o que ficou conhecido também como Bolsa-esmola.

O dito de Kehl a favor do Bolsa-família incomoda pela exposição inteligentemente crítica e difícil de ser explicada: se fulano deixa de trabalhar para se contentar com o valor máximo (R$ 200,00) que um auxílio da Bolsa-família pode oferecer, é frustrante imaginar como essa pessoa vivia antes de tomar tal opção. Esse dizer incomoda a cegueira alegre daquele que afirma que o vagabundo é pobre porque quer e prefere viver de esmola do governo. Ora, esse dito, assim, como ácido à filosofia capitalista, só poderia arder mesmo naquele que é constituído fatalmente pela “natureza espontânea” desse sistema que reduz a vida a: quem trabalha tem, alcança; quem não trabalha é vagabundo e deve adequar-se já.

Mas, do dito os livros, os jornais e até mesmo o corpo estão cheios. O perigo que nunca está evidente (e talvez seja isso que mantém tantas pessoas cegas a essa “conduta espontânea”) é o não-dito. O não-dito de Maria Kehl é que é preciso compreender. Não-dito que corresponde aos elementos histórico-materiais que permitem o dizer, às condições de produção do dizer. Michel Pêcheux, filósofo e linguista francês, nos dá base teórica para rasgar a cortina do óbvio via sua proposta de teoria materialista do discurso. Em Semântica e Discurso, ele destaca que o caráter material do sentido é efeito do dito com o não-dito, sendo a consideração de ambos os elementos o que nos permite compreender criticamente, neste caso, o dito e o não-dito de Kehl.

O dito, materializado, provocou rebuliço por parte dos leitores do Estadão que jamais esperariam encontrar na sua sopa azul e amarela uma mosca vermelha. O não-dito age por duas vias: a historicidade, que permitiu Kehl dizer o que disse na condição que Pêcheux conceitua como aquilo que pode e deve ser dito. Kehl disse, mediante a robusta estátua da liberdade de imprensa, aquilo que não poderia nem deveria ser dito. A materialidade, explícita no fato do Estadão evidenciar seu apoio ao candidato Serra, conduz a pensar além do dito e compreender que o que está em jogo são quatro anos de uma posição poderosa pela quantia de dinheiro que envolve e autoridade circense para mandar e desmandar no picadeiro de milhões de palhaços.

Não estou querendo dizer que o Estadão está errado por apoiar Serra. Afinal, sua editoria já assumiu essa posição e isso é bom pelo fato de mostrar uma tomada de opinião. Porém, o não-dito que sacaneia o dito de Kehl é sua demissão obscurecida por uma censura disfarçada. Deve haver liberdade de opinião, desde que a sua opinião seja a minha? Se for assim, pra quê liberdade de imprensa pra quem censura opiniões?

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