Que me desculpem aqueles que forem contrários aos termos do título desde texto (poderia ser “união homoafetiva” ou outra coisa que o valha), mas, sobre o assunto que pretendo comentar, a terminologia em si talvez seja menos importante - mero chamativo.
O debate sobre a vida, a existência e o que fazem ou deixam de fazer as pessoas classificadas como homossexuais não é recente. Há séculos a imaginação construída e difundida sobre a figura homossexual paira sobre diversas instâncias de distintas discursividades, reiterando majoritariamente os estigmas que ainda hoje lhe são flechadas. O filósofo francês Michel Foucault (A história da sexualidade), debruçado nesses questionamentos, dedicou uma parte de seus preciosos estudos ao discurso médico que patologizou o gosto pelo mesmo sexo conjuntamente quando trancou no quarto o sexo rei (hetero) e o forçou a falar.
Ao contrário do que pode sugerir o título e também este espaço próprio de jornal (opinião), não pretendo tornar bipolar a questão ou situá-la sendo a favor ou contrário ao casamento gay. Gostaria, muito modestamente, de contribuir com a discussão no sentido de pensá-la a partir de uma proposta de Michel Pêcheux, outro estudioso francês.
Para Pêcheux, ideologia não é X, mas, os mecanismos e os processos que constituem X. Ou seja, a homossexualidade em si não seria ideologia, mas, o que se fala e o que se faz, o que se pratica em torno do que caracteriza, enquanto acontecimento, a homossexualidade. Parto, assim, de uma notícia veiculada em site jornalístico dando conta de que o Senado da Argentina aprovou, na madruga desta última quinta-feira, o casamento gay concedendo aos homossexuais os mesmos direitos civis dos heteros (pensão, adoção, etc.). Logo abaixo dessa notícia é possível, através de um simples login grátis, comentar, responder e até brigar verbalmente com os demais leitores daquela matéria. Como as opiniões são várias sobre o mesmo assunto, a situação se faz muito interessante para tentar observar de que modo acontecem os conflitos discursivos ali constituintes.
Em apenas cinco horas de matéria publicada já se liam mais de 100 comentários. Enquanto uns parabenizavam a Argentina pela democracia e laicismo da atitude (conceitos estes tão mais líquidos quanto qualquer outro), outros a demonizavam. Cito um, completo, por me parecer ótimo exemplo para observarmos o que ocorre: “O Sr. Luis Juez mostrou-se um Católico de Carteirinha, ou seja, lendo apenas os folhetos dominicais (Enganosos) e citando a Bíblia que ele desconhece totalmente, pois ela é clara e diz:1 Coríntios 6:10 ‘Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, Nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.’, portanto não cite a Bíblia sem conhecimento.”
O que nos parece muito claro nesse exemplo é a posição contrária à aprovação da referida lei tendo como base a formação discursiva cristã. Porém, com um pouco de apuro, podemos perceber que o comentarista se vale de uma relação bastante questionável entre a citação bíblica e a existência homossexual assinalada pela aprovação da lei. Afinal, o que permite relacionar “adúlteros”, “efeminados” ou “sodomitas” à identificação do ser homossexual? Quer parecer que o homossexual se reduz a uma sexualidade; a mesma que o discurso médico condenou como peste rosa há poucas décadas e tende a persistir na (re)construção, na reiteração e na permanência de significação do homossexual como uma restrita maquininha de sexo e DST’s. Bom, disse que não ia tomar posição, mas, o perigo da palavra é esse mesmo.
Para finalizar gostaria de citar uma frase de Theodor Adorno e indicar, ao prezado leitor que teve paciência de ler isso, um filme ao qual assisti recentemente. Trata-se de La Haine (1995), do diretor Mathieu Kassovitz, destacando a convivência miserável e opressora da sociedade que vive e se alimenta da repelência mascarada sobre as diferenças. E, de Adorno, questionando o espírito do Iluminismo que tanta glória prometeu: “O pensar sempre se bastou para determinar concretamente seu próprio caráter questionável”. Sugiro, assim, que pensemos sobre o que pensamos. Ainda que jamais escapemos desse círculo.
O debate sobre a vida, a existência e o que fazem ou deixam de fazer as pessoas classificadas como homossexuais não é recente. Há séculos a imaginação construída e difundida sobre a figura homossexual paira sobre diversas instâncias de distintas discursividades, reiterando majoritariamente os estigmas que ainda hoje lhe são flechadas. O filósofo francês Michel Foucault (A história da sexualidade), debruçado nesses questionamentos, dedicou uma parte de seus preciosos estudos ao discurso médico que patologizou o gosto pelo mesmo sexo conjuntamente quando trancou no quarto o sexo rei (hetero) e o forçou a falar.
Ao contrário do que pode sugerir o título e também este espaço próprio de jornal (opinião), não pretendo tornar bipolar a questão ou situá-la sendo a favor ou contrário ao casamento gay. Gostaria, muito modestamente, de contribuir com a discussão no sentido de pensá-la a partir de uma proposta de Michel Pêcheux, outro estudioso francês.
Para Pêcheux, ideologia não é X, mas, os mecanismos e os processos que constituem X. Ou seja, a homossexualidade em si não seria ideologia, mas, o que se fala e o que se faz, o que se pratica em torno do que caracteriza, enquanto acontecimento, a homossexualidade. Parto, assim, de uma notícia veiculada em site jornalístico dando conta de que o Senado da Argentina aprovou, na madruga desta última quinta-feira, o casamento gay concedendo aos homossexuais os mesmos direitos civis dos heteros (pensão, adoção, etc.). Logo abaixo dessa notícia é possível, através de um simples login grátis, comentar, responder e até brigar verbalmente com os demais leitores daquela matéria. Como as opiniões são várias sobre o mesmo assunto, a situação se faz muito interessante para tentar observar de que modo acontecem os conflitos discursivos ali constituintes.
Em apenas cinco horas de matéria publicada já se liam mais de 100 comentários. Enquanto uns parabenizavam a Argentina pela democracia e laicismo da atitude (conceitos estes tão mais líquidos quanto qualquer outro), outros a demonizavam. Cito um, completo, por me parecer ótimo exemplo para observarmos o que ocorre: “O Sr. Luis Juez mostrou-se um Católico de Carteirinha, ou seja, lendo apenas os folhetos dominicais (Enganosos) e citando a Bíblia que ele desconhece totalmente, pois ela é clara e diz:1 Coríntios 6:10 ‘Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, Nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.’, portanto não cite a Bíblia sem conhecimento.”
O que nos parece muito claro nesse exemplo é a posição contrária à aprovação da referida lei tendo como base a formação discursiva cristã. Porém, com um pouco de apuro, podemos perceber que o comentarista se vale de uma relação bastante questionável entre a citação bíblica e a existência homossexual assinalada pela aprovação da lei. Afinal, o que permite relacionar “adúlteros”, “efeminados” ou “sodomitas” à identificação do ser homossexual? Quer parecer que o homossexual se reduz a uma sexualidade; a mesma que o discurso médico condenou como peste rosa há poucas décadas e tende a persistir na (re)construção, na reiteração e na permanência de significação do homossexual como uma restrita maquininha de sexo e DST’s. Bom, disse que não ia tomar posição, mas, o perigo da palavra é esse mesmo.
Para finalizar gostaria de citar uma frase de Theodor Adorno e indicar, ao prezado leitor que teve paciência de ler isso, um filme ao qual assisti recentemente. Trata-se de La Haine (1995), do diretor Mathieu Kassovitz, destacando a convivência miserável e opressora da sociedade que vive e se alimenta da repelência mascarada sobre as diferenças. E, de Adorno, questionando o espírito do Iluminismo que tanta glória prometeu: “O pensar sempre se bastou para determinar concretamente seu próprio caráter questionável”. Sugiro, assim, que pensemos sobre o que pensamos. Ainda que jamais escapemos desse círculo.
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Eder José














