sábado, 4 de setembro de 2010

Duas reflexões sobre professor(a) e dinheiro

Gostaria, muito brevemente, de instigar os prezados leitores deste espaço a uma reflexão sobre a relação entre a profissão professor(a) e o dinheiro. Relação sempre problemática porque, em última instância, a formação ideológica consensual é sempre a de que os professores ganham mal e são coitados, e, ainda assim, sempre se lhes atribuem culpa a respeito dos péssimos (quem é da educação sabe o quanto esse adjetivo nos é caro) índices de avaliação que todo mundo adora comentar, mas, poucos se dão ao trabalho de tentar compreender outros fatores que funcionam em torno disso.
Essa minha reflexão leva em consideração o episódio recente do desentendimento entre os professores municipais de Cascavel e os atuais encarregados da gestão do município. Divergência que, entre alhos e bugalhos, acaba na discussão de dinheiro, de salário, de vantagens, avanços, etc., assim como o que culminou no ridículo da acusação da líder sindical do Siprovel em ganhar mais de 8 mil reais mensais, ou na piada de que um professor municipal ganha mais de 2.500 reais por 40h.
A primeira proposta à reflexão é: a condição de que ser professor não é ter um dom, no sentido de que haja alguma coisa metafísica que predestina este ou aquele indivíduo a ter competência de ensinar, de lidar com docência. A imagem de professor salvador da humanidade deve ser descartada porque constitui a falácia de que só a educação pode melhorar a sociedade. Ora, qualquer sistema de educação é, antes de qualquer coisa, um aparelho de ordem política. Não se ensina o que se ensina à toa. Prova disso são os diversos currículos, PPPs que o Estado exige. A educação deve ser tratada como política, como prática de sobrevivência, como movimento de luta de classes. Aliás, o próprio currículo de Cascavel, que foi incentivado pela gestão atual, é baseado em concepções do materialismo histórico-dialético. Deve-se, agora, em meio às evidências das contradições (professores X governo municipal) opacizar o real motivo dessa briga entre interesses de classes ou trazer à tona que ser professor é ser proletário?
Segunda proposta: o professor, assim como qualquer pessoa, não escapa a essa história que se constitui, pela economia, como movimento de luta entre classes. Pensemos no futebol. O que torna possível o Neymar (jogador do Santos) receber 150 mil reais por mês e morar em uma cobertura de 3 milhões trabalhando com...jogar bola? Vamos supor que a administração municipal esteja correta em seus cálculos e que, assim, um professor ganhe em média 2.500 reais. Esse jogador, com apenas 18 anos, receberia então 60 salários mensais de um professor que estaria já em final de carreira e, portanto, não mais em seus 20 e poucos anos. Tudo bem, afinal, este é o país do futebol - (bem?). Mas, e a educação? Porque a Veja adora comparar a educação brasileira com a europeia? Compara-se a educação, mas não se põe à comparação, lado-a-lado, professor e jogador de futebol por aquilo que justamente os constitui: suas existências condicionadas e determinadas pelo confronto de interesses econômicos.
É essa relação com o dinheiro que não só no caso do professor, mas, como todo empregado subjugado ao empregador, deve ser refletida. Estas são apenas propostas de reflexão. Se alguém tiver alguma sugestão ao debate, contribua. O que não devemos é permanecer calados quando esses gritos de socorro são abafados pelo riso irônico e silencioso de uma política comparsa.

 
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