quarta-feira, 18 de março de 2009

Cotidiano bélico

No texto intitulado “Não ao sexo rei”, que trata de uma conversa entre Bernard Henri-Lévy e Michel Foucault, Henri-Lévy questiona Foucault sobre o uso de metáforas guerreiras em suas respostas: poder e resistência, tática e estratégia, etc. Considerando que um dos interesses do diálogo está na questão do poder e no modo das relações em que o poder ocorre, responde, então, Foucault que há apenas dois modelos para se analisar as relações de poder: o direito tal como o conhecemos institucionalmente (o poder como lei, proibição, direitos, etc.) e o modelo guerreiro, no sentido de luta mesmo, em forma de guerra.
Sobre o primeiro, diz ser inadequado porque o direito não descreve o poder. A propósito, nem existe o poder em si, como objeto, e sim relações de poder. Sobre o segundo, há constantes manifestações, mas, frouxas e majoritariamente verbais. Fala-se, fala-se, fala-se e nada. Enfim, a proposta sobre o estudo do poder implica, segundo Foucault, a necessidade de aprimorar a análise das relações de força.
Pois é, preocupe-se aí amigo leitor! O assunto é meio complicado mesmo. Mas, o objetivo deste texto é tentar, na nossa exuberante ignorância, pensar estas relações de poder e força sobre nosso cotidiano. Como podemos observá-las? Para quê um acontecimento A e não B, ou Z? Nesse ponto somos tentamos a pensar: onde há uma relação de força, esta ocorre porque há necessariamente uma luta, uma batalha. Contudo, Foucault mesmo adverte que a afirmação de uma luta não pode servir de explicação para uma relação de força. Por quê? Porque a luta só adquire significado em um modo operatório. Ou seja, sendo cada caso um caso, quem está em luta? Pelo quê há luta? Luta-se com que instrumentos? A favor de quê? Em quantos?
Então, pergunto: você acredita que vive em um cotidiano bélico? Quem é teu inimigo? Qual teu objetivo caso acredite que irá vencer uma luta?
Observemos alguns fatos recentes. Lembra daquele cara que atirou os sapatos contra o Bush lá em Bagdá? Muntader al-Zaidi, jornalista, está condenado a nada menos que 3 anos de prisão. E o miserável ainda errou a sapatada! Porém, o Collor, aquele do impeachment, ficou, entre 1992 e 2000, privado dos maravilhosos direitos políticos e agora aí está: presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, à forra com as fortunas do PAC. E o Renan? Lembra? Para esse Calheiros, a luta foi só renunciar à presidência do Senado. Continua senador e líder do partido, ainda que seja o PMDB. Alguém me explique, satisfatoriamente, tais relações. Como e porque quem ganhou, ganhou assim?
Tenho certeza de que você pode listar inúmeras outras relações de poder e luta sem colocar um político sequer. Quem é teu inimigo? Se nosso cotidiano é bélico, você sabe a resposta.
Achando que sei quem sou, ou, pelo menos, supondo a situação em que vivo, prefiro observar e viver as relações de poder do nosso cotidiano pela segunda proposta foucaultiana. Não por parecer mais violenta que a outra, mais ou menos eficaz. Até porque ele mesmo, Foucault, quando questionado se desejaria uma revolução, disse não ter resposta pronta. Mas, por saber e perceber dolorosamente, na relação mais estreita de força e poder, que a primeira é um magnífico e complexo teatro.
Às vezes, no desespero da perspectiva, pensando nos nossos inimigos, futrico comigo mesmo, daqui e ali, algumas ideias bélicas para poder permanecer no jogo, para lutar, para manter minhas débeis e persistentes relações de forças, seja lá de onde vierem. Mas, a cada página, a cada site, a cada TV, a cada barulho, a sensação é já ter nascido game-over.

Texto publicado em 20 de março de 2009 nos jornais:

O Paraná (http://www.oparana.com.br/)

Hoje (http://www.jhoje.com.br/20032009/opinioes.php)

1 comentários:

Cearánews! disse...

Dale, dale Mágico de OZ, ops, Edér Foucalt....

Vamos fazer a revolução!!!

 
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