sexta-feira, 20 de maio de 2011

A cartilha "errada" do MEC

Responda-me, caro leitor, uma coisinha simples: quando você está a fim de convidar um amigo, uma amiga, para tomar uma cervejinha, você diz “E aí, vamu tomá u’a gelada?” ou “Prezado nobre, acompanha-me à degustação de uma cerveja?”? Se você for uma pessoa desde planeta, certamente falará algo próximo ao primeiro exemplo. Mas, não fique espantado. Isso de jeito nenhum significa que você é burro ou não sabe falar direito. É característica de toda linguagem ser falada de forma diferente (ora mais, ora menos) em relação à sua escrita dita “formal” ou “padrão”.

É nesse sentido (de que se escreve uma coisa e fala-se outra), que a professora Heloísa Ramos tenta contribuir na publicação do livro Por uma vida melhor, impresso e distribuído pelo Ministério da Educação via Programa Nacional do Livro Didático a 4.236 escolas. Partindo, ao que me parece, dos pressupostos desenvolvidos pela teoria variacionista da Sociolinguística, a autora simplesmente chama a atenção à realidade de que falamos uma língua e escrevemos outra. Afinal, para estar adequado à norma padrão de escrita, quem é que nunca sofreu com uma crase, uma concordância verbal, regência nominal, coisa do tipo?

De um lado, especuladores políticos, acusam o MEC do PT de distribuir cartilhas com erros gramaticais que incentivam a escrever e falar errado. Perigoso jogo político jogado por especialistas em especulação que, por trás, não estão nem um pouco preocupados com o “uso da língua”, e sim em desocupar logo os cargos que eles perseguem. De outro, não-especuladores políticos (no sentido não visarem necessariamente uma nomeação de ministério, de secretaria) que se estendem desde alguns deuses da Academia Brasileira de Letras até viventes do cotidiano comum (professores, jornalistas, alunos, catadores de latinhas analfabetos) são levados pela maré do “estão assassinando a Língua Portuguesa”.

A questão é: não se pode assassinar algo que não existe! A língua, tal como propôs Ferdinand de Saussure em 1916 no seu famoso Curso de Linguística Geral, simplesmente não existe. Para Saussure, a língua seria um sistema completo e abstrato, possível de ser estruturado e analisado objetivamente por meio de critérios que, pelo lado bom da coisa, permitiram a instituição da Morfologia, da Fonologia e da Sintaxe. Mas, a respeito da fala cotidiana e principalmente da Semântica (área que se dedica ao sentido das palavras) a Linguística que desconsidera elementos sócio-históricos como, por exemplo, as condições de produção das quais o funcionamento de uma fala ou de um texto são constituintes (e isso é fundamental à compreensão) é falha logo de início.

Em outras palavras, o que quero dizer é que essa ideia de língua perfeita, como se houvesse um punhado de palavras à disposição do falante, bastando a este saber as regras e as leis de uso para um bom desempenho verbal (tal como previa a equivocada Retórica aristotélica), é radicalmente falsa. A língua não é uma instância suspensa em um mundo metafísico. Ela se constitui no movimento, no acontecimento, se cria nas práticas cotidianas muito diversificadas dos sujeitos falantes em suas relações com o simbólico, com o discurso, com a história, com o inconsciente. Por isso, as pessoas falam de modos diferentes, escrevem de modos diferentes e assim sempre o será. Supor que se pudesse atingir um nível perfeito de escrita ou de fala perpetua divisões sociais e preconceitos do tipo: ele é burro, pois escreve errado. / não tem estudo, pois não sabe falar direito.

Quando a professora Heloísa propõe considerar “os menino pega o peixe”, o problema a ser pontuado não é se se fala errado ou certo, como gritam agora alguns experts: “MEC distribui cartilha com erros gramaticais e grafias incorretas”. Trata-se de uma corajosa posição que, como diz o próprio título do livro, prevê olhares sobre a língua Por uma vida melhor, por consideração às diferenças sócio-histórico-econômicas e, principalmente, sobre aquilo que causa essas diferenças.

2 comentários:

Sou eu disse...

Discordo plenamente!
Essa tendência sóciolinguística defendida,dentre outros, pelo fodástico "Bagno" é uma falácia!
Se for para observar exemplos cotidianos, vamos aos fatos: um menino que ficou mto "famoso" na internet foi o "vão se foderem"! Sua infração? Erros gramaticais.

Vc diz "Supor que se pudesse atingir um nível perfeito de escrita ou de fala perpetua divisões sociais e preconceitos do tipo: ele é burro, pois escreve errado. / não tem estudo, pois não sabe falar direito."
Pois é... já pensou se essas pessoas tivessem o poder de optar, a capacidade de articular uma e outra linguagem? Calar é um retrocesso à idade Média, período em que alguns poucos sabiam e não contavam para a maioria. Apenas seus descendentes tinham acesso a esse conhecimento. Padronizar a linguagem já o põe em igualdade em uma dada situação!! Ou é mais fácil que os conhecedores "esqueçam" regras? Pense nisso!

Lembrando ainda o Bagno. Em palestra ele disse que o "vós" não existe na língua viva e que devemos reconhecer isso e eliminá-lo de vez de nossa língua. Só que o vós só existe em 4 esferas até hj: Literária, política, religiosa, jurídica. Mas e quando eu precisar falar com uma dessas esferas? Ah, daí é melhor nós "volta" pra casa, já que não pitamo nada mesmo...
Então, é o povão que se fode! ou que se fodem? não sei...

Coragem é achar que esse tipo de linguagem pode ser aceita sem agravar as diferenças...

Eder José disse...

Prezado "Sou eu", em primeiro lugar quero agradecer a leitura e o comentário sobre meu texto. Em segundo, não vejo motivos para tentar convencê-lo de minhas opiniões. A diferença sempre nos constituiu e isso torna nossa vidinha um pouco mais interessante. E, por isso, também agradeço sua discórdia em relação ao texto.
Agora, o que gostaria de destacar é que não se trata de se "escrever/falar errado", mas de estar ou não adequado a determinadas situações. Isto sim é função da escola: possibilitar ao aluno um desenvolvimento mais ágil sobre as diversas instâncias da língua. O que repudio é o ridículo de acreditarmos que um político ou advogado (para ficar nos seus exemplos) sabe "falar melhor" ou "mais bonito" do que um pessoa que diz "entreguei os livro hoje".
O próprio professor Ataliba Castilho (tive o prazer de assistir a uma palestra dele recentemente em Maringá), disse comumente: "Tamo no olho do furação". Veja bem, o professor Ataliba dedica a vida a pesquisar linguística e gramática e, em um evento em que fala à universitários, diz uma coisa (tamo), mas escreveria outra, evidentemente (estamos).
Mais uma coisa: quando você precisar falar com uma das esferas que você cita (política, jurídica...) não espere "aperfeiçoar" sua linguagem, e muito menos espere isso de seus alunos (caso trabalhe com docência). Escreva e fale como puder, sejam quais forem as condição de produção do momento. Caso contrário, aí sim permaneceremos nessas situações de desigualdade: inteligentes X burros; políticos X povão; juízes/advogados X leigos. A disputa na ordem da língua não é apenas sob e sobre regras, mas principalmente sócio-histórica-econômica, como já nos alertava Michel Pêcheux em 1975 (Semântica e Discurso).
Novamente, agradeço sua contribuição e espero mais comentários.
Grande abraço!

 
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