sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Requião homofóbico? E nós?

Olá!
Muitos devem ter visto por aí, pela parca mídia que, incansavelmente, nos rodeia, uma enxurrada de cacetadas sobre o governador Requião a respeito de uma piada relacionando câncer de mama nos homens às passeatas gay.
Apesar de estarmos um pouco distante dos períodos eleitorais, isso quer soar um indício do que nos espera ano que vem, em meio às disputas dos cargos de deputados, senadores e presidente.
Convido-os a uma breve observação sobre este caso.
Em uma busca que não durou 5 minutos (para se ter ideia do quanto se falou da situação), recortei as seguintes imagens¹-manchetes de alguns jornais e portais online:


De fato, uma parte da imprensa se empenhou em condenar a piadinha de Requião. Porém, exatamente nos mesmos jornais que enfatizaram uma infelicidade da tentativa de brincadeira do governador, encontramos todos os dias, a cada edição e em cadernos específicos, imagens e piadinhas do seguinte caráter:

O que pretendo sublinhar com isso é que as fotos de casais, pensando nas páginas estilo People dos jornais, são sempre de heterossesexuais e não vemos um casal homossexual nessas seções. A insistência no retrato do casamento entre homem e mulher não ocorre por acaso, pois, milhares de outras fotos poderiam ser publicadas ali.
Já as piadinhas solidificam um processo cultural que remete e determina a mulher a uma posição social e o homem a outra: não são homens que estão no salão de beleza ou devem ser 'rodomoços', mas mulheres.

As piadas sobre sexo versam majoritariamente sobre o gauchão efeminado, o marido que é traído, a loira néscia, etc. Freud diria que essa atuação (contar e rir do chiste) é rir da própria condição sexual; é perceber concomitantemente, ainda que em teor inconsciente, engraçados e satisfatórios os problemas sobre os quais uma sociedade se agita.
Mas, não vamos tão longe. O que me importa destacar agora é que a mídia que desce o porrete em Requião quando ele brinca com a condição homossexual é a mesma que determina, cristaliza e privilegia as condições hetero. Ou seja, à primeira vista parece que há mesmo uma grande preocupação midiática em fazer 'aceitar' as relações homo através da inaceitabilidade (ainda mais de um governador) de se falar contra e cair no que entendemos por preconceito.
Porém, como vimos neste breve exame, a preocupação sobre a piadinha de Requião não é com o que ele acha ou deixa de achar sobre os gays, e sim com sua posição estritamente política de governante, de modelo aristotelicamente 'correto'. O que se acentua sobre uma possível disputa à presidência da república.
A aceitação ou a não-aceitação à homossexualidade não pode ser julgada sem considerar que seus acontecimentos enunciativos emergem de um lastro cultural histórico que é orientado, inclusive atualmente, pela ordem patriarcal.

1 - As imagens foram intencionalmente manipuladas a fim de não especificar identificação e evitar a citação de fontes.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O 14º salário de alguns servidores municipais

Acabo de ver em alguns noticiários que o prefeito Edgar Bueno pretende lançar um esquema chamado Programa Gestão por Resultados. De acordo com o disposto no site da prefeitura de Cascavel, tal programa objetiva aumentar a qualidade do serviço público bonificando financeiramente os servidores que atingirem determinadas metas. Essa bonificação pretende ser o equivalente a 1 vencimento ao ano, ou seja, um salário referente à atribuição do cargo do servidor.
O problema inicial é: quais servidores estarão dentro do esquema?
Em entrevista a um jornal, Alisson da Luz (secretário de Administração) disse que se trata de servidores municipais lotados em setores, divisões ou departamentos. Bem a cara do discurso político mesmo: dizer tudo enquanto diz nada. Afinal, que servidores são esses? Pois, se forem os já coordenadores ou coisa semelhante, gostaria de lembrar que estes já recebem porcentagens sobre seus vencimentos justamente pela responsabilidade que é inerente ao desempenho daquilo que coordenam.
"O prêmio por produtividade já funciona muito bem em Minas Gerais", disse o secretário. O que ele não sabe é que, enquanto administrador de Cascavel, deveria estar preocupado com os problemas cascavelenses primeiro para depois procurar aplicar o que entendem por "modelos" a serem seguidos. Não sei o que leva esses políticos a afirmarem que o que deu certo lá em Caixa Prego dá certo em qualquer lugar. Olhem para nossa realidade, latente!
Acham-se muito competentes para ficar implantando programas de bonificação aqui e acolá mas, no dia-a-dia não dão conta nem do pagamento, nem do gozo de uma licença-prêmio; coisas básicas do estatuto.
Enfim, de duas, uma: imcompetência ou falta de vontade. Vamos ficar de olho no PL (projeto de lei) que deverá ser encaminhado à Câmara dos Vereadores sobre esse esquema. Assim que tiver notícias, posto aqui.
Abraços!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pescaria com Moisés

Olá!
Para começar essa semana com um pouco de humor, eheh:
O que, de modo algum, por mim, pretende significar desrespeito às religiões.
Por favor, hein!
Boa semana a todos!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A questão 13 do concurso da PRF 2009

Olá!
Eis a questão 13 do caderno 68, área de Língua Portuguesa, referente ao concurso público da polícia rodoviária federal ocorrido domingo (18/10):

O hino do América F.C., composto por Lamartine Babo, diz:
"Hei de torcer, torcer, torcer... Hei de torcer até morrer, morrer, morrer... Pois a torcida americana é toda assim, a começar por mim."

O recurso linguístico que enfatiza o compromisso entoado pelo hino é
A) o emprego do verbo auxiliar "haver".
B) o uso das reticências.
C) a repetição da estrutura sintática.
D) a presença da palavra "torcida".
E) a autoreferência do pronome "mim".

De acordo com o gabarito, a resposta certa é a alternativa A. De acordo com a minha opinião, a alternativa mais próxima ao solicitado é a B. Vejamos:
A "definição" comum da Gramática¹ às reticências é: "indica uma interrupção da estrutura frasal. Essa interrupção pode decorrer de hesitação de quem tem sua fala representada ou pode indicar que se espera do leitor o complemento da frase (muitas vezes com finalidade irônica). Os dicionários, por sua vez, dizem simplesmente: "omissão do que se podia ou devia dizer".
Ora, se o sinal de reticências (...) remete ao que deixou de ser dito, o que "deixou de ser dito" na frase em questão não foi nada senão a repetição do já repetido:

Hei de torcer, torcer, torcer / ...
Hei de torcer, torcer,
torcer / torcer, torcer, torcer, torcer

até morrer, morrer, morrer / ...
até morrer, morrer, morrer / morrer, morrer, morrer, morrer

Assim, o que ENFATIZA o compromisso entoado pelo hino é certamente a inscrição das reticências que reiteram o aspecto infinito de "torcer" e "morrer" e não o verbo haver que, neste caso, apesar de ser necessariamente auxilar correspondendo a um tempo composto (Presente do Indicativo), tem muito mais circustâncias para significar algo que ainda não aconteceu e nem está acontecendo:
Hei de torcer = torcerei

Segundo Piacentini², os auxiliares TER e HAVER quando seguidos da preposição "de" formam locuções verbais com sentidos diferentes entre si. Portanto, "haver de" expressa uma intenção, uma promessa.
Cabe aí um bom pedido de recurso contra o gabarito oficial.

1. Cipro Neto, Infante. Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Scipione, 2003.
2. Maria Tereza de Queiroz Piacentini é professora de Inglês e Português, revisora de textos e redatora de correspondência oficial.

A língua fal(h)a

De acordo com Eni Orlandi (2001), uma das coisas que diferencia a Análise do Discurso em relação a outros modos de observar a lingua(gem) é que a AD percebe a língua enquanto um sistema sujeito a falhas. Mas, antes (Sêmantica e Discurso, 1975), Michel Pêcheux já criticava (por uma explanação complexa e muitíssimo interessante) a obviedade e a clareza que se afirmava ter, desde a época clássica de Port-Royal até algumas teorias recentes sobre Enunciação, a relação língua-linguagem, detidamente sobre os processos da relativa explicativa e relativa determinativa.
A imagem abaixo é de um cartaz fixado no interior de um empresa aqui em Cascavel. Este estava no interior do escritório mas, andando pelo galpão de montagem da indústria, pude perceber que há vários cartazes com a mesma inscrição:
Perceba-se como se requer a comunicação: "de forma objetiva e transparente". Em contrapartida, Pêcheux mesmo dizia que a língua é opaca. Não por que esconde algo ou está em função de falar de objetos em juízo disto ou daquilo, mas porque os efeitos de sentido gerados a partir de um enunciado jamais estão/são claros e objetivos. A significação, nessa perpectiva, é construída por um processo perigosamente ideológico que, não compreendido, gera, nos termos de Pêcheux um "diálogo de surdos".
Na formação social capitalista em que vivemos, é vital a esse sistema que a língua tenha aparência de evidência, pois, tanto quanto para quanto de os trabalhadores é preciso que seja clara a lógica das instruções, do "isto deve ser feito assim e aquilo assado", das normas técnicas, das regras, etc.: é a retórica do comando.
O que, em prol de manutenção, não se fala e não está claro é como essa comunicação não comunica a circustância de pessoas trabalharem para outras pessoas através de um "contrato" que parece natural como uma providência pré-existente. A esta linguagem, que nos remete aos subterrâneos da filosofia, parece bem-vindo o silencimento.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Determinação de estereótipos: o discurso nos corpos

Olá!
Deveríamos saber que os estereótipos do que consideramos feio/bonito, atraente/horrível ou "apresentável"/"não-apresentável" são construções culturais-ideológicas estreitamente ligadas à questão da identidade. Ou, como muito melhor diz Stuart Hall*, aos processos de identificação.
A propaganda do vestibular 2010 da Univel (UniãoEducacional de Cascavel) aparece na mídia local de forma muito oferecida a uma interessante análise sobre quais estereótipos pretendem ser destacados por antagonismo a outros.
Nos seguintes vídeos, vemos estereótipos (considerando que nossos corpos são inscrições de sentidos, de identificação) que são pejorativizados em prol de outros, tanto sobre o homem quanto a mulher.
Ora, em sociedades atuais de estereótipos tão diversos, me parece muito infeliz associar a imagem do corpo ao discurso de um sucesso profissional/educacional por uma estratégia discursiva tão rasteira. Tentar apagar uma determinada inscrição corporal pela reiteração da memória de outra é um processo que merece ser observado a fim de se compreender que interesses se articulam aí.




Poderíamos até pensar que tal propaganda é preconceituosa em relação aos que usam piercings, têm cabelos multicores ou despenteados e barba "a fazer". Mas, até mesmo o que entendemos por preconceito ainda não nos é claro em virtude de sua caverna histórica-discursiva.
O que interessa ao ler, agora, essas propagandas, é tentar compreender como quer parecer evidente (inclusive pela persuassão) a construção de estereótipos que pretendem determinar as inscrições de nossos corpos. E, muitas vezes, determinam.





* A identidade cultural na pós-modernidade, editora DP&A, 2005.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Comercial da TVE

Olá!
No post anterior falei sobre o perigo da influência da TV na formação de conhecimentos. Por ventura, recebi no mail um videozinho bem engraçado e interessante a respeito.
Curioso é que a TVE, produtora do comercial, é uma emissora de televisão espanhola.
O que é que uma emissora de televisão pode ajudar em qualidade de conhecimento? Eita perguntinha ácida, não?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Repertório de conhecimento: cuidado!

Esta semana uma das atividades aplicadas aos alunos da escola em que trabalho era de produzir um texto no Word a respeito do homem e sua relação com a natureza. Antes da produção, da digitação propriamente, foi lido e comentado um texto que versava sobre essa relação - como o homem utiliza os recursos naturais em favor de sua sobrevivência. O que me espantou foi constatar uma interferência nítida da mídia no texto de um aluno. Até dei um "PrintScreen" na ocasião, mas deu pau na imagem. Logo, descrevo. Em certo excerto, o aluno digitou:

"O homen vive 7 anos menos que a mulher."

Certamente essa afirmação nada tem a ver com o tema do texto solicitado. Ela tem relações com outros inúmeros enunciados que dão conta da perspectiva de vida feminina/masculina, mas, para um aluno de 4ª série enunciar isto em um texto cujo assunto é homem-natureza, evidencia-se uma preocupação desse menino sobre essa possibilidade: o homem viver menos que a mulher.
Tentando compreender esse acontecimento enunciativo em suas condições de produção, podemos afirmar que esse sujeito disse o que disse porque foi atingido por um enunciado que lhe causou uma necessidade de reposta ativa. Esse enunciado que o inquietou, acredito eu (por ser o perído exatamente o mesmo - 7 anos), é uma propaganda transmitida pela TV Globo que diz que homens, por terem menos cuidado com sua saúde, vivem em média 7 anos a menos que mulheres.
Se de fato for, não que assistir televisão seja nocivo, mas, por aí percebemos como se forma a estrutura cultural, repertório de conhecimento de uma pessoa. No mínimo, percebemos o quanto as informações da mídia se fazem nossos enunciados e, logo, nos fazem. Mas, e se as informações da mídia não forem o que pensamos ser verdade e não passarem apenas daquilo que outros sujeitos querem que sejam? Então seremos resultado de desejo de outros? A brincadeira é complexa e séria.
Em todo caso, tomem cuidado com a TV. Ainda mais os pais em relação aos filhos! Apenas o professor é pouco para alertar dos perigos de uma formação de conhecimento precária e alienada. Leiam livros, naveguem na internet, perguntem, questionem. Chega de acreditar que o Bonner está sempre certo e a Ana Maria Braga só diz coisas legais.
Se não compreendida adequadamente, a mídia só pode ser letal à intelectualidade.

* A imagem do aluno é meramente ilustrativa

Sangra fundo em Sanga Funda

Amanhã, às 10h, de acordo com a Agência de Notícias do PR, o governador Requião vem a Cascavel para entregar 288 casas aos "invasores sem-teto" que atualmente ocupam a região do Gramado. Essas 288 casas compõem uma região (ao fundo da foto) que está sendo chamada de Sanga Funda. Numa dicionarização (de dicionário mesmo) tosca pelo Priberam, temos: Sanga = pântano
Fundo = situado muito adentro
Porém, esse problema de toponímia deve interessar mais à própria Onomástica. O que gostaria de destacar agora é um trocadilho muito coerente que aí se articula.
Que o Sanga Funda é, de fato, um pântano situado muito adentro está na cara. Melhor, na foto. Percebam que além das casas há somente chácaras, sítios, pequenas terras que já são a área rural de Cascavel. Em outros termos, os "invasores" serão deslocados de um centro urbano que é o Gramado para uma marginal, fazendo divisa com ... o mato. Em conversa com um futuro morador dali, este me disse que junto com as famílias vêm uma turma da pesada que está acostumada a passar noites em função do 'incômodo alheio'. Pior que isso é esses sanga-fundenses estarem tão distante de um desenvolvimento de mercado, trabalho, etc. A maioria é catador de papel, juntador de lixo ou simplesmente à-toa. A questão é: o que farão num reino tão-tão distante de empresas, de indústrias, de lojas? Ninguém consegue viver à-toa, pelo menos sem encher o saco de outros. Mandar invasores para o cú de uma cidade em prol da ordem burguesa é muito fácil. Só pegar uma grana Federal e colocar uns pilas em cima. A TV divulga e pronto.
O receio é que Sanga Funda logo se torne um local em que se Sangra Fundo.

 
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